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Tulum e as primeiras impressões

Blog | 6 | 2 | 22/12/2021

Tulum, México.


É o nosso primeiro dia por ali, em um fim de tarde abafada caminhando pela via principal da cidade. Rua que parece estrada. Estrada que parece rua.


Assim é Tulum, ou pelo menos a sua Zona Hoteleira. Uma via com grande movimento de carros e motos, tudo levemente desorganizado, além de vários turistas-ciclistas passando em busca das praias (ou seriam os pontos instagramáveis do lugar?) e muitos bares, restaurantes e hotéis com seus beach clubs caríssimos.


Nesse cenário abafado de caos misturado ao que é novo (tínhamos chegado em Tulum naquela tarde), estamos em busca de um lugar onde tomar uma cerveja e relaxar. Dois bares ao lado do nosso hotel parecem convidativos, e escolhemos o mais vazio na esperança de que os preços fossem bons.


Quem nos atende é uma bartender que dança sem disfarçar ao som dos reggaes tocando ali, enquanto organiza o balcão em que está trabalhando.

Peço uma long neck da cerveja local, mas não me lembro porque a Nathara não pede nada. Ah, que delícia! Brasileiro tomando uma gelada na praia quer mais o que, não é? Ganhar na loteria, penso eu.


Conversamos, decidimos o que fazer dali a pouco e peço a conta. A sorridente bartender me diz que foi $60 pesos mexicanos pela cerveja. Mentalmente eu converto o valor e fico horrorizado - isso dava em torno de R$ 16, o que é muito para os nossos gastos de viagem.



Apesar de não estar muito feliz, dou uma nota de $100 pesos e aguardo. Ela retorna em instantes dizendo que não tem troco, e me pergunta se não posso deixar a diferença como gorjeta.


Gorjeta! Nós temos o costume de dar gorjeta, mesmo em viagens, e especialmente porque em alguns países isso é o “normal”, o mais educado a se fazer. Mas em Tulum… ah, Tulum! A gorjeta seria dos $40 pesos restantes! Quase a cerveja toda que tomei! Para quem viaja, e principalmente, para quem viaja com certo controle das finanças, não dá para gastar assim por coisas banais como uma cerveja, menos ainda em gorjetas.


O valor da long neck e da gorjeta são míseros US$5, como a atendente mesmo me lembra! O que são, afinal, 5 dólares?


Penso em várias coisas - pagaríamos um almoço para duas pessoas em Oaxaca ou San Cristóbal, 3 cervejas grandes compradas no mercado, as passagens para Teotihuacán… sem contar em como esses 5 dólares feriram meu orgulho! Poxa, US$5 são R$ 30!!!

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Bicicleta na Playa Paraiso, em Tulum | Foto: Pelo Mundo a Dois

Que brasileiro em sã consciência paga R$ para tomar uma cervejinha long neck???


Com esse gosto amargo pelo gasto à toa, saímos do bar e caminhamos pensando: será que aqui tudo vai ser caro assim?


Essa foi a primeira impressão que tivemos de Tulum, de que tudo seria demasiadamente inflacionado pela fato de ser um destino turístico muito procurado, em alta no Instagram e entre os nômades digitais, e que talvez não valesse tanto a pena ficar por ali - por mais incríveis que suas praias fossem.


Nos dias seguintes, a nossa dúvida se tornou uma certeza - em Tulum, a nossa primeira impressão foi verdadeira e tudo era caro!

Primeiras impressões são as que (quase sempre) ficam

Tulum é linda e incrível! E não são apenas as praias, mas todo o ambiente e riqueza cultural que ainda existe por lá torna o lugar realmente atrativo!


Mas é muito difícil esquecer como os preços são altos, como é “chatinho” encontrar uma praia sem a necessidade de pagar o equivalente a um órgão (tipo um rim) para poder entrar nos beach clubs ou mesmo para se hospedar nos hotéis com pé na areia.


É difícil pensar que, talvez, seja melhor nem se hospedar em Tulum e conhecer o lugar em um passeio saindo de Playa del Carmen - essa sim, mais barata, acessível e tão linda quanto.


E isso é o curioso a respeito de primeiras impressões: muitas vezes, acaba impactando nossa opinião, por mais que todas as outras experiências e vivências mostrem o contrário.


Quer ver um exemplo? História engraçada essa agora.


Desde a escola eu reclamava. Me diziam que eu resmungava, reclamando muito - com ou sem razão. Mas o que diziam é que eu passava do ponto, era demais. Chatão.


Afinal, tem jeito para tudo nessa vida e, de certo, deve ter um jeito melhor de colocar seu ponto de vista sem ser o reclamão da turma.


Anos mais tarde, no andar com ar-condicionado do meu emprego, depois de ser efetivado na empresa e ter duas promoções em 3 anos, recebo meu primeiro feedback ruim: eu deveria ter atitudes mais positivas, ter “indignação construtiva”, que, para pessoas comuns do nosso Brasilzão, significa simplesmente parar de reclamar.


Pelo visto, era uma percepção antiga dos meus gestores e que foi mencionada em um feedback somente alguns anos depois. Aquilo me fez pensar, com relutância, devo confessar, que talvez o pessoal da escola estivesse certo!


Epa! Será que eu era mesmo chatão???

Talvez eu estivesse mesmo sendo chato, reclamando demais. Ou reclamando errado. Ou talvez o errado seja reclamar - acho que é isso.

Imagino que essa tenha sido a primeira impressão que eu havia passado - o que se confirmou com o passar do tempo: eu trabalhava muito bem, mas às vezes reclamava.

Não é fácil mudar a percepção que as pessoas têm de você, principalmente se a primeira impressão que passamos é negativa. E esse foi o meu caso.


Hoje, alguns anos depois daquele primeiro feedback, consegui mudar (ou gosto de pensar assim) um pouco essa ideia que construíram a meu respeito, mas o caminho foi árduo. Ainda é.


E mesmo assim, vez ou outra alguém me diz que eu reclamo demais (mesmo que eu não tenha falado nada), pois aquela visão, aquela primeira impressão ficou na memória da pessoa. Tá bem, sou culpado.


Levei muito tempo de reflexão, autoavaliação (e humildade?) para começar a entender que, se muitas pessoas estavam dizendo o mesmo sobre mim, é porque provavelmente era verdade.


Mudar quase nunca é fácil. Mas quase sempre necessário.


E quanto mais rápido mudamos algo que desejamos (ou precisamos, como no meu caso), mais chances temos de passar uma boa primeira impressão.


O negócio é ficar esperto e tentar ser sempre a melhor versão de si mesmo, impactando positivamente todos à sua volta.


Afinal, a gente pode acabar como Tulum, e a nossa primeira impressão seja a que fique.


Texto
: Vinícius Marchetti

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Essa crônica faz parte de uma série de textos em que falo sobre os lugares e experiências que vivi. A ideia é compartilhar um pouco mais do momento e não tanto dar dicas de viagem (mas acho que, no fim, é sobre isso também).

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Adorando o blog de vcs!!! Nossa, fiquei com mais vontade de conhecer o México. Obrigada por compartilharem!! 😍❤

Pelo Mundo a Dois

Pelo Mundo a Dois

Ah, que legal esse comentário! Sério, ficamos muito felizes! E mais felizes ainda de saber que te animamos mais para conhecer o México! Vai adorar!!! 🥰

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